Calendas de Março

Literatura brasileira

Romance Calendas de Março de ivete Nenflidio


‘Calendas de Março’ une memória, política e literatura com sensibilidade

Os horrores dos anos de chumbo, o conflito armado e a repressão policial servem de pano de fundo para uma instigante história de amor, descoberta anos depois por uma mulher, durante um cenário tão complexo quanto o anterior: o período de pandemia da covid-19.
Durante o isolamento social, Helena, personagem central do romance “Calendas de Março”, de Ivete Nenflidio, ao buscar um refúgio temporário para seus temores, acaba encontrando um diário guardado no fundo de um baú, que a faz viajar pelo tempo e por suas memórias.
A personagem não apenas relembra os horrores da ditadura militar brasileira, que permeiam suas lembranças de infância, mas acaba descobrindo também uma poderosa história de amor e resistência, o que faz com que seja traçado um paralelo entre dois momentos históricos complexos vividos no Brasil.
Narrado em terceira pessoa, o livro transita pelas emoções de Helena e as de Luiza, aquelas encontradas no diário. Memórias que por vezes se identificam e se mesclam, mas também fazem com que a protagonista se transporte para uma outra realidade, chegando a se esquecer das angústias do tempo presente.
Por outro lado, a história de Luiza também faz com que Hele­na, a todo instante, retorne para a própria situação atual do país, já que se torna impossível para a protagonista não enxergar a conexão entre passado e presente.
“Assim como Helena, viajei em uma leitura na qual encontrei diversos paralelos com a rea­lidade que me cerca. Ivete transita entre o interno e o externo, revelando os temores e angústias da protagonista em meio à quarentena, bem como as reflexões que ela estabelece entre o cenário político brasileiro atual e o dos anos de ditadura”, destaca Aione Simões, escritora.

Romance Calendas de Março de ivete NenflidioRomance Calendas de Março de ivete Nenflidio

Calendas de Março - 1º e 2º capítulo - ISBN 978-65-00-05228-2


As lembranças do velho baú criavam em sua mente memórias que a levavam ao tempo de menina. Quando criança, o mundo já se apresentava tenebroso; ainda miúda, ouviu os ruídos da terrível ditadura militar. O Brasil vivia um período obscuro, no qual as pessoas não podiam expressar o que pensavam, pois suas opiniões e ações poderiam lhes custar a vida. Telefones grampeados, gente vigiada, muitos eram perseguidos por causa dos livros lidos, das faculdades cursadas, das canções ou literaturas críticas ao regime. As ideias de liberdade que defendiam lhes eram arrancadas com violência. Era perceptível o crescimento do fanatismo religioso, a adoração a um Deus que vai contra tudo pregado pelo cristianismo. As pessoas condenam e matam, fundamentadas em suas beatices.

Após separar-se de seu marido, Helena foi excomungada pela igreja, não que isso tenha lhe causado sofrimento, ela sempre fora apaixonada pela história do mundo e conhecia muito bem os horrores cometidos pelas instituições católicas, portanto, ser demonizada pelo clero não significava muito para ela, que se tornara apenas mais uma maga desertora a ser queimada até a morte. 

A propósito, Helena encontrava coerência nessa atitude, pois, para ela, a instituição cristã continuava antiquada, primitiva. O santo ofício, essa entidade formada pelos antigos tribunais da igreja católica — que perseguiram, julgaram e puniram milhares de pessoas —, nunca tentou rever suas condutas, perpetuando a fala dos perseguidores. Sentia falta apenas dos padres da teologia da libertação, das missas que assistira no fim da década de setenta, cerimônias regadas a canções de protesto. 

Sentia falta desse tempo, quando a igreja desempenhava seu papel cristão de amparo e proteção aos perseguidos.

Helena nunca acreditou neste Deus que pune quando o amor termina e que defende que os seres humanos vivam na mentira. Seria um ato de desobediência à vontade de Deus? Não acreditava nessa divindade, acreditava no oposto, na figura sublime que está presente na natureza, nos animais e nas pessoas bondosas e caridosas.

Helena assistia a uma corrida desafiadora: parte da raça humana lutava contra o cego fanatismo, defendia a ciência, combatia as manifestações de ódio dos assombrosos cristãos, seres que acreditam em milagres, pessoas medíocres que invadem centros hospitalares, motivados pelas palavras aniquiladoras de líderes ignóbeis. As pesquisas avançavam em muitos lugares do mundo, uma luta incansável contra o invisível, contra o vírus mortal, mas essa batalha não se faz presente em todos os cantos do planeta. Aqui no Brasil, país continental, ah, aqui é tudo diverso. Nestas terras, as preocupações são multiplicadas, os ventos sopram diferente, e detentores de grande sabedoria são tratados como inimigos.


Ano 2020

Os pássaros cantavam, anunciando o novo dia. Helena continuava limpando os pertences daquela velha caixa de madeira. Ao remover cada um dos objetos, do fundo daquele baú, percebeu um embrulho que parecia um livro. Estava acomodado entre as miudezas, perfeitamente condicionado, e era a última peça da arca. O papel florido estampava lírios, o verde das folhas e o amarelo da flor agora se mostravam pálidos, a fita adesiva, que fora utilizada, tinha perdido a aderência. Helena o desembrulhou facilmente, era um caderno que deveria estar ali há muito tempo e ela não se lembrara daquelas anotações.

Na primeira página havia uma receita de carne barreada, um prato de origem açoriana típico do sul do país. Achou interessante e a leu até o fim, parecia apetitosa e de fácil preparo. Sem tardar, imaginou que fosse um livro de culinária, desses escritos antes do surgimento da internet, e matutou um pouco: “de quem seria o caderno?”.

Com ele em mãos, foi ao quarto e perguntou ao marido se sabia a quem pertencia, mas seu companheiro não fazia ideia, apenas disse que poderia ser de um de seus irmãos. Logo, considerou que pertencia ao seu irmão mais velho, haja vista ele sempre chegar abarrotado de livros — trazia-os para compartilhar suas belas leituras. Era um adepto leitor e, possivelmente, a pessoa mais instruída que Helena já conhecera; era espantoso, sabia um pouco de tudo: literatura, música, cinema; um aficionado pelo mundo do conhecimento. Portanto, esse caderno de receitas deveria ser dele, talvez um presente de algum amigo. Ora, ele não era um proficiente cozinheiro, uma de suas poucas limitações.

Helena acreditava que havia desvendado o mistério, entretanto, perguntava-se: “por que estaria enterrado no fundo do baú?”, parecia que alguém o quisesse esconder. Quando ela virou a página, não existiam mais receitas culinárias, pois o que lia era o início de uma história impensável, cheia de segredos, enigmas que teria que solucionar.

Curiosa, não conseguia parar, era um texto convidativo, cativante e comovente, uma história adorável que tratava da intensa saga de uma vida de luta. Foi estimulante encontrar aquele caderno e pensava novamente de quem seria.

Na noite anterior, Helena se sentia enervada, cansada, uma angústia invadia seu corpo. Ela não era a única assim, uma nova patologia afligia milhares. Helena transbordava em aflições, juízos ansiosos e preocupações aferradas tiravam sua paz. Um medo terrificante tomava conta dos seus pensamentos.

O silêncio deu lugar a um ruído nunca percebido em seu quarto. Era o som dos batimentos cardíacos, ora cadenciados, em ritmos quase sinfônicos, outras vezes desenfreados, mas sempre intensos, que poderiam ser ouvidos em todo o ambiente, ressoando na quietude daquele cômodo frio. Eram tempos difíceis; ela era apenas mais uma nessa imensidão, entre outros sete bilhões.

No lusco-fusco, suas reflexões de mundo a levaram a um oceano sem fim onde dezenas de questões torturantes tiravam seu sono. Apesar de notívaga, sentia-se cansada e desmotivada. Sempre adorou a vida noturna, mas agora o silêncio se mostrava perturbador e, com o entrar da madrugada, surgiam sentimentos confusos, medos e amofinações. Dormir no horário estipulado pela sociedade sempre foi algo sofrível para Helena e acordar cedo um martírio que a fragilizava. Mas agora tudo estava descontrolado, suas noites eram intermináveis e o crepúsculo da manhã ardia seus olhos que ficavam vermelhos e craquelados. Constantemente Helena bloqueava a luz com seus cortinados de tramas fechadas e tons azuis, impedindo que a luminosidade de intensidade crescente do amanhecer invadisse o interior de sua sala.

Assim como Helena, toda a massa humana estava consumida por uma terrível e sufocante perturbação, ideias antecipadas que geravam muito sofrimento, inquietações, um transtorno arraigado e obsessivo sobre o futuro, sentimentos que afetam a mente, enfermidade que acomete a consciência e consome lentamente os pensamentos racionais; os sintomas mais relatados são: visão turva, insônia e uma espécie de arritmia, como a sentida por Helena naquela noite; uma solução mitigadora talvez pudesse ser empregada, quiçá hipnose ou, eventualmente, um sedativo forte que colocasse todos em um entorpecido sono profundo.

Helena sabia que, decerto, também sofria da nova patologia. Derrotada, somava-se aos milhões que estão na esgotante e incessante vigília. Exaurida, não conseguia adormecer. Sistematicamente, buscava artifícios para dormir, técnicas de meditação que possibilitassem um relaxamento. Sua busca era por noites mais tranquilas, aquietando os pensamentos inoportunos no momento do descanso, entretanto, nada funcionava. Nos poucos cochilos, acordava assustada, tinha pesadelos recorrentes, sonhava que despencava de uma ribanceira que ruía, caía sobre um amontoado de corpos falecidos; era sempre o mesmo devaneio. Normalmente, às quatro horas da manhã, ainda estava conectada, buscava na serenidade da noite um pouco de conforto ou, talvez, a fuga do marasmo e dos pesadelos que a perseguiam. Assim como em seus sonhos, a realidade também se apresentava assustadora: defuntos eram enterrados em grandes escavações, retroescavadeiras eram utilizadas pelos coveiros. Nessa cova comum, corpos infectados eram apenas números, uma grande destruição em massa estava em curso e todos presenciavam cenas de terror, um aglomerado de cadáveres, centenas de milhares, em projeções catastróficas, inimagináveis há alguns meses, e ela se perguntava: “como viverão os remanescentes?”.

Os dias eram quase todos iguais, a rotina e a incerteza de quando o planeta estaria livre do vírus mortal deixara todos apreensivos. Helena, para tentar se distrair, costurava máscaras com sua filha, precisava ocupar a mente. Criava-as para si e para os amigos, eram produzidas com tecidos alegres, alguns floridos; também costurava estampas lúdicas para os miúdos, muitas cores para todos os gostos. Pretendia com esse acessório amenizar os olhares perdidos, pedalando em sua máquina de costura; às vezes cansava e, descansando, olhava pela janela. Para impedir o crescente avanço do novo vírus, era necessário um isolamento rígido, por isso a população foi dividida em vários grupos. Existiam os obrigados sitiados, a maioria septuagenários e octogenários; aqueles expostos ao risco, ou seja, os homens e mulheres dos serviços essenciais, e encontrávamos outras camadas da sociedade, os sensibilizados mental e fisicamente e os abalados financeiramente. Para esses, a rotina não mudara, seria exatamente a mesma, continuariam nas ruas, arriscando suas vidas. Para vários, um tempo sem fim que dizima milhares. Ainda existem os fanáticos religiosos que pagam fortunas por pílulas milagrosas.

Nessa noite incomum, algo de especial aconteceu e mudou drasticamente aquele confinamento. Helena olhou pela janela e avistou a lua cheia, estava grandiosa. No céu enxergou estrelas e um pontinho de luz que brilhava intensamente. Dizia ser Vênus. Ouvia apenas o tic-tac que ecoava da sala e o som de seus passos na meia-luz que iluminava o corredor.

Já prevendo os rangidos, abriu a porta da copa com cautela, aqueceu a água e preparou um chá de capim-santo. Sua avó cultivava plantas medicinais e dizia que a infusão era uma excelente bebida para controlar os sintomas da ansiedade, possuía muitas propriedades calmantes, o que seria ótimo, tudo o que ela precisava. Essas oralidades da cultura popular sempre a instigaram.

Ela bebia a infusão e se lembrava de sua avó, falecida há quinze anos. Acreditava mesmo que pudesse sentir uma sensação de tranquilidade ao tragar aquela bebida, precisava ficar serena. Vagando pela casa, agora se dirigia a outro cômodo, uma saleta pequena, um cantinho da casa, com muitos livros e discos. Seu gato a perseguia, roçava sua perna, passeava em círculos; o bichano só a procurava nas madrugadas. Quando ele se sentia carente, perdia as características de felino ressabiado que, por vezes, insistia em morder ou arranhar.

Sentada numa poltrona, num canto da sala, observava um livro, uma enciclopédia com os maiores teatros do país, obra linda que listava equipamentos culturais, os mais emblemáticos, e ela recordava que já havia percorrido os bastidores da maioria deles, lembrando de um tempo de constantes viagens. Trabalhadora das artes, era apaixonada pelo que fazia. Seu bichano continuava ronronando enquanto ela folheava as páginas daquele livro encantador, escrito por um cenógrafo que ela conhecera anos antes.

Ao seu lado, o bichano logo se acomodou para um cochilo, Helena repousou o livro de capa dura sobre a mesa lateral, apagou a lâmpada e acendeu outra, uma pequena luz noturna. Tentou se acalmar, lembrando-se das viagens e aventuras, excursões impensáveis nesse momento. Pensava nas diversas produções que criara, muitas delas naqueles espaços de grande beleza e histórias. Tentava buscar respostas, matutava se as aglomerações seriam possíveis no futuro: será que ainda teremos teatros lotados? Imaginava a pós-pandemia, enquanto bebia o calmante feito de ervas naturais. Aproveitando o momento, tentou aquecer as mãos, pois a noite era gélida.

Sentada, cobria-se com uma pequena manta que estava jogada num canto do móvel. Ficou desfrutando o silêncio, usufruindo de um momento só seu; barulhos: só o ruído do relógio e o ronronado de seu gato, ele também estava relaxado.

Helena se ajeitava e virava para colocar a xícara sobre a mesa, cuidando para a bebida não entornar perto de sua enciclopédia. Tinha ali um baú que ela não abria há mais de vinte anos. Ganhara a velha arca de um amigo e a usou para guardar suas memórias. De madeira maciça, era uma antiguidade do oriente, que fora fabricada com madeiras de árvores centenárias, e ela dizia que eram recortes de Sândalos. O baú tinha um desenho lindo, formando flores na tampa e, nas laterais, traços abstratos, detalhes feitos de marchetaria.

Dentro dessa caixa oca, tão bela, entalhada pelas mãos de um artesão, ela guardou lembranças envelhecidas. Ali estavam mais de quatro décadas de recordações, álbuns de fotografias, objetos especiais que recebera de pessoas já falecidas, de amigos e amores vividos.

Em algumas ocasiões, Helena pensou em abri-lo, mas, pela incursão da vida moderna que abstrai, acabou não o fazendo. Essa engelhada arca do tesouro que ficara anos fechada, vedada pelo esquecimento, acumulava recordações, momentos importantes da vida de Helena, coisas deslembradas, anuladas, desprezadas deliberadamente.

O móvel era pesado e ela não o movia do lugar há anos, estava lá encravado no canto da sala, parecendo criar raízes; era impossível arrastá-lo, precisaria de muitos braços para movê-lo.

Abriu aquele velho baú pela última vez há muito tempo. Poderia estar equivocada em suas recordações, mas relatava que era algo entre dez e doze anos quando o abrira brevemente para guardar uma agenda de contatos telefônicos, dessas cadernetas de papel que não têm mais serventia, pois seus contatos estavam todos nas “nuvens”, salvos em microchips e cartões de memória. Ela pensava: “quem diria que teríamos um cartão de memórias, será que já não somos capazes de organizar e guardar nossas lembranças?”.

Naquele velho baú colocava tudo de antigo, de desnecessário, coisas que não queria descartar. Apesar de não terem mais utilidades, pensava que, talvez, um dia, precisasse de algo. Abri-lo também poderia ser doloroso; revisitar certos eventos da vida poderia aflorar angústias adormecidas.

Nessa madrugada, aquele velho mobiliário a chamava, era como se pedisse para ser aberto, e ela, como se ouvisse o apelo. Algo a motivava, tomava em suas mãos a xícara quente e novamente tragava um gole, ajoelhou-se em frente ao velho baú. Ela não recordava da maioria das coisas e foi invadida por uma curiosidade imensa, um pobre objeto decorativo, lotado de bugigangas. Helena agora estava vigilante, provavelmente o capim-santo tinha efeitos colaterais, deveria ser estimulante para algumas pessoas, pois estava mais acesa do que nunca.

Aquela caixa seria aberta e ela, finalmente, teria contato com quinquilharias que nem recordava. Aqueles objetos poderiam respirar, seu interior seria ventilado, já não viveriam na penumbra, a poeira seria libertada, o cheiro do velho invadiria a sala, um odor intenso exalaria dos antigos livros, postais e cartas esquecidas.

Imediatamente, ao abrir o baú de memórias, uma instantânea irritação tomou conta de Helena: um prurido em seus olhos que, rapidamente, começaram a lacrimejar; vermelhos, eles ardiam. Surgiram sucessivos espirros, decerto estava iniciado um processo alérgico, daqueles sérios que só são solucionados com droga fortíssima que entorpece, trazendo sensação de cura momentânea.

Rapidamente, ao abrir aquela bela caixa, sentiu um aperto dolorido no peito, estava cercada de lembranças de um tempo perdido, de vidas que não viveu, de escolhas equivocadas, de lágrimas que não derramou por orgulho, de arrependimentos e dores profundas.

Embarcou na viagem das memórias. Foi surpreendida, enxergou peças, velharias, textos, transportou-se para o tempo da inocência, tempo sem medo que a permitia exteriorizar sentimentos.

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